Na manhã desta quarta-feira (16), os criadores de gado de Mato Grosso do Sul se manifestaram sobre a decisão dos frigoríficos do Estado de suspender a produção de carne bovina que seria destinada aos Estados Unidos, após os importadores americanos recuarem mediante as tarifas de 50% impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump, sobre os produtos brasileiros.
Segundo Paulo Matos, presidente da Nelore-MS (Associação Sul-Mato-Grossense dos Criadores de Nelore), a tarifa dos EUA terá um impacto limitado. Assim, os frigoríficos estariam usando o tema para pressionar o preço do boi no Brasil. “É uma manobra de frigoríficos para forçar criadores a vender o seu animal com preço abaixo da média”, aponta.
“Os EUA compram apenas 8% da carne que exportamos, o que representa 2,3% da produção brasileira. Falar em colapso de mercado interno é, no mínimo, má-fé. É um discurso criado para tentar jogar a conta dessas tarifas em cima do produtor, pagando menos pelo nosso boi”.
Equilíbrio no mercado
Para o vice-presidente do Sincadems (Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de Mato Grosso do Sul), Alberto Sérgio Capucci, a Associação não está totalmente errada quando afirma que o tarifaço terá um impactado limitado. A expectativa é de que, em poucos dias, tudo volte à normalidade. No entanto, pontua que a pressão sobre os produtores não vem diretamente dos frigoríficos.
“A pressão de baixa veio primeiro por parte dos compradores de carne. Por exemplo, todas as grandes redes de supermercados saíram de compra, todos os grandes importadores de carne brasileira também saíram de compra, então o frigorífico está no meio do processo, ele só está repassando a baixa na venda da carne”, explica.
Capucci aponta que as estratégias comerciais que esperam conquistar com outros países compradores possibilitará a normalização do mercado em breve.
“Acredito que a normalização será mais pelas estratégias de abrir novos mercados na exportação, porque o mercado interno já está no limite, não há perspectiva de aumento de consumo no mercado interno”, frisa.
Arroba já baixou
O titular da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Jaime Verruck, chama atenção para o risco de desvalorização do preço do boi.
“A gente não consegue colocar esse produto rapidamente em outro mercado internacional. A consequência seria colocar esse produto no mercado interno sul-mato-grossense, mercado interno brasileiro, o que obviamente pode haver um aumento de oferta e também uma redução de preço e, na sequência, até uma redução de preço da arroba do boi aos produtores. Por isso que é tão preocupante esse tarifaço”, explicou Verruck.
Segundo os dados mais atualizados disponíveis, o valor da arroba do boi gordo já apresentou leva queda em Mato Grosso do Sul após a suspensão da exportação de carne aos Estados Unidos. Conforme a Scot Consultoria, o preço da arroba do boi gordo, à vista, registrou queda na praça de Dourados e ficou em R$ 298,50, na terça-feira (15). Em Campo Grande e em Três Lagoas, os preços se mantiveram estáveis, em R$ 301,50.
No entanto, para a Nelore-MS, os frigoríficos querem ampliar a margem de lucro e utilizam os produtores rurais como “amortecedor dos problemas internacionais”. O mercado norte-americano, segundo a Associação, absorve basicamente cortes desossados congelados, voltados à indústria de hambúrguer e processados, sem peso decisivo na precificação do boi gordo. “A conta é simples: quem vai pagar mais caro pelo hambúrguer são os consumidores americanos, não os produtores brasileiros”, conclui Paulo Matos.
A Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul) vê com preocupação o entrave comercial, já que os Estados Unidos são um importante parceiro comercial para Mato Grosso do Sul. “Em 2024, os Estados Unidos foram o segundo maior destino das exportações sul-mato-grossenses. A interrupção das vendas pode representar prejuízos econômicos imediatos, comprometendo a estabilidade e impactando nos preços do mercado da pecuária”, explica o presidente da entidade, Marcelo Bertoni.

Comentários: